Existe uma cena que se repete silenciosamente na vida de muita gente.
Você quer fazer alguma coisa.
Sabe que seria importante.
Talvez até saiba exatamente o que precisa fazer.
Mas pensa:
“Eu ainda não tenho confiança suficiente.”
Então espera.
Espera se sentir mais preparado.
Mais seguro.
Mais experiente.
Mais bonito.
Mais inteligente.
Mais qualquer coisa que, na sua cabeça, finalmente permita começar.
O curioso é que esse dia pode demorar bastante para chegar.
E talvez exista uma pequena inversão nessa história.
A gente costuma imaginar que primeiro se torna confiante e depois começa a agir.
Mas, em muitas situações, acontece justamente o contrário:
a confiança é construída enquanto você age.
E isso muda completamente a pergunta.
Em vez de perguntar apenas “como me tornar mais confiante?”, talvez seja interessante perguntar:
“O que estou esperando sentir para me permitir fazer aquilo que quero?”
Essa pergunta pode levar a lugares bem mais interessantes.
Índice
Confiança não é a mesma coisa que autoestima
Antes de falar sobre como aumentar a confiança, vale separar algumas coisas que costumam virar uma grande salada dentro da nossa cabeça.
Autoestima, de maneira simplificada, está relacionada à forma como avaliamos nosso próprio valor.
Autoconfiança costuma estar mais ligada à percepção de que somos capazes de enfrentar determinada situação.
E existe ainda um conceito da Psicologia chamado autoeficácia, associado aos trabalhos de Albert Bandura.
A ideia, simplificando bastante, é a crença que uma pessoa tem sobre sua capacidade de realizar determinada ação ou lidar com determinada situação.
Isso é importante porque você pode ter uma autoestima razoavelmente boa e ainda se sentir completamente inseguro diante de algo específico.
Uma pessoa pode gostar de quem é e, mesmo assim, pensar:
“Eu não sei se consigo falar para esse público.”
“Não sei se consigo começar esse negócio.”
“Não sei se consigo fazer esse trabalho.”
“Não sei se consigo aprender isso.”
Então talvez o problema nem sempre seja:
“Eu não gosto de mim.”
Às vezes é:
“Eu ainda não tenho experiências suficientes que me façam acreditar que consigo fazer isso.”
E aí chegamos a uma parte muito interessante.
Seu cérebro aprende com aquilo que você faz
Imagine duas pessoas diante de uma situação nova.
As duas sentem medo.
A primeira recua.
Ela evita, adia, inventa uma desculpa e sente um enorme alívio.
“Ufa. Ainda bem que não fiz.”
A segunda vai mesmo com medo.
Talvez faça mal.
Talvez fique nervosa.
Talvez cometa erros.
Mas termina.
E pensa:
“Ok. Eu consegui passar por isso.”
Na próxima vez, nenhuma das duas necessariamente estará completamente confiante.
Mas existe uma diferença.
A segunda agora possui uma experiência.
Ela tem uma nova informação sobre si mesma.
“Eu já fiz algo parecido antes.”
É por isso que experiências importam tanto na construção da confiança.
Não porque toda experiência será positiva.
Mas porque agir permite descobrir coisas que permanecer parado não consegue ensinar.
Você pode descobrir que era capaz.
Pode descobrir que precisava se preparar melhor.
Pode descobrir que aquilo nem era tão importante quanto imaginava.
Pode descobrir uma habilidade que não sabia que tinha.
Pode descobrir que errou e sobreviveu ao erro.
E isso é muito diferente de passar horas tentando imaginar o que aconteceria.

O problema de pensar demais antes de agir
Pensar é maravilhoso.
Até porque, se não fosse, provavelmente este artigo não existiria. 😂
O problema começa quando pensar deixa de ser preparação e vira substituto da ação.
Você analisa.
Planeja.
Pesquisa.
Compara.
Refaz.
Imagina todos os cenários possíveis.
E, quando percebe, passou tanto tempo tentando eliminar a possibilidade de dar errado que nunca chegou a descobrir o que aconteceria se simplesmente tentasse.
Existe uma diferença importante entre reflexão e ruminação.
Refletir pode ajudar a encontrar caminhos.
Ruminar costuma manter a pessoa presa ao mesmo problema, repetindo possibilidades e preocupações sem produzir movimento.
É aquele pensamento circular:
“E se eu fizer errado?”
“Mas e se…”
“Só que talvez…”
“Melhor esperar…”
“Quando eu estiver mais preparado…”
E pronto.
O cérebro acaba construindo uma espécie de sala de espera psicológica.
Você não está exatamente desistindo.
Mas também não está começando.
A insegurança pode ser alimentada pela evitação
Aqui existe outro detalhe importante.
Quando evitamos alguma coisa que nos assusta, geralmente sentimos alívio.
E esse alívio é real.
Se você tem medo de falar em público e consegue escapar de uma apresentação, seu corpo pode relaxar.
“Problema resolvido.”
Só que existe uma pegadinha.
Você também perdeu a oportunidade de descobrir que talvez conseguisse lidar com aquela situação.
E é justamente aí que a insegurança pode se transformar em autossabotagem: quando, tentando evitar o desconforto de fracassar, acabamos também evitando as oportunidades que poderiam nos fazer avançar.
Se você quiser entender melhor esse mecanismo, vale ler também [Por que você sabota a própria felicidade?].
E, na próxima vez, o medo pode continuar ali.
Esse mecanismo aparece em diferentes contextos psicológicos: a evitação pode reduzir o desconforto no curto prazo, mas também pode impedir que a pessoa tenha experiências que desafiem suas expectativas negativas.
É como se o cérebro dissesse:
“Ainda bem que você não foi. Aquilo provavelmente seria terrível.”
Mas você nunca descobriu.
Porque não foi.
E é aí que a insegurança pode ganhar uma aparência de verdade absoluta.
“Eu não consigo.”
Quando, na realidade, talvez a experiência ainda nem tenha sido testada.

E o que Rocky Balboa tem a ver com isso?
É aqui que a cultura pop entra como nossa cúmplice.
Rocky Balboa não é interessante apenas porque é um boxeador.
Ele é interessante porque sua história trabalha com uma pergunta bastante humana:
o que acontece quando alguém decide tentar mesmo sem possuir todas as garantias de que vai conseguir?
No começo, Rocky não é apresentado como alguém que possui uma confiança extraordinária.
Ele é um sujeito comum.
Tem limitações.
Tem dificuldades.
Não ocupa o lugar de alguém que já venceu tudo.
E justamente por isso sua história funciona tão bem como metáfora.
Rocky não precisa acreditar antecipadamente que será o melhor.
Ele precisa descobrir até onde consegue ir.
Essa diferença parece pequena, mas muda tudo.
Porque existe uma forma de confiança baseada na fantasia:
“Eu sei que vou conseguir.”
E existe outra baseada na experiência:
“Eu não sei se vou conseguir, mas sei que consigo tentar.”
A segunda é muito mais interessante para a vida real.
A confiança não precisa eliminar a dúvida
Talvez essa seja uma das maiores confusões quando pensamos em pessoas confiantes.
Imaginamos que alguém confiante não duvida.
Não sente vergonha.
Não fica nervoso.
Não pensa no julgamento dos outros.
Não tem medo de fracassar.
Mas isso é quase uma caricatura.
Uma pessoa pode sentir insegurança e ainda assim agir.
Pode sentir medo e continuar.
Pode não ter certeza e tomar uma decisão.
Pode se sentir vulnerável e se posicionar.
Coragem não exige ausência de medo.
E confiança também não precisa significar ausência de dúvida.
Talvez confiança seja, em parte, desenvolver uma relação diferente com a dúvida.
Em vez de:
“Estou com medo, então não consigo.”
passar para:
“Estou com medo. O que eu consigo fazer apesar disso?”
Percebe?
A pergunta deixa de ser sobre eliminar a emoção.
Passa a ser sobre descobrir o que você pode fazer enquanto ela está presente.

Existe também uma questão mais profunda: quem você acha que deveria ser?
E aqui podemos abrir uma porta para a psicanálise.
Às vezes, quando dizemos:
“Eu quero ser mais confiante”,
não estamos falando apenas de segurança.
Estamos falando da imagem que construímos da pessoa que deveríamos ser.
A pessoa segura.
Interessante.
Competente.
Desejada.
Bem-sucedida.
Que sabe o que está fazendo.
Que entra em uma sala e não treme.
Que nunca fica sem resposta.
Que sabe exatamente qual caminho seguir.
O problema é que essa imagem pode ser tão perfeita que qualquer versão real de nós parece insuficiente.
E então surge um paradoxo:
quanto mais tentamos nos tornar aquela pessoa idealizada antes de agir, menos permitimos que a experiência real nos transforme.
Talvez você não precise se tornar a versão perfeita de si mesmo para começar.
Talvez precise aceitar que a versão atual é justamente a que vai começar o processo.
Com medo mesmo.
Com dúvidas mesmo.
Sem a pose cinematográfica.
Porque, convenhamos, na vida real ninguém coloca uma música épica quando finalmente decide responder aquele e-mail difícil. 😂
Como se tornar mais confiante na prática?
Se confiança é construída também por experiência, então talvez o caminho não seja procurar uma sensação mágica.
É criar oportunidades para experimentar.
1. Escolha uma ação pequena
Não tente reconstruir sua personalidade inteira numa terça-feira.
Escolha uma coisa.
Algo pequeno, concreto e possível.
A confiança gosta de evidências.
2. Faça antes de se sentir completamente pronto
Isso não significa ignorar preparação.
Significa perceber quando a preparação já virou uma desculpa elegante para adiar.
Pergunte:
“O que realmente falta para eu começar?”
E não:
“O que falta para eu nunca mais sentir medo?”
São perguntas completamente diferentes.
3. Registre suas pequenas conquistas
Lembra dos recibos?
Pois é.
Seu cérebro adora recibo.
Quando você consegue alguma coisa que antes parecia difícil, não passe correndo por cima.
Reconheça.
“Eu fiz.”
“Eu tentei.”
“Eu consegui falar.”
“Eu terminei.”
“Eu voltei.”
Essas experiências fazem parte da sua história.
4. Reavalie seus fracassos
Um resultado ruim não precisa se transformar em uma sentença sobre sua identidade.
Em vez de:
“Eu sou péssimo nisso.”
experimente:
“Essa tentativa não funcionou. O que ela me ensinou?”
Isso não é pensamento positivo de caneca.
É uma maneira mais específica de olhar para a experiência.

Talvez confiança seja confiar que você consegue lidar com o que vier
Essa é uma ideia que vale guardar.
Talvez o objetivo não seja chegar ao ponto em que você pensa:
“Nada pode dar errado.”
Porque pode.
Você pode falhar.
Pode ser rejeitado.
Pode passar vergonha.
Pode mudar de ideia.
Pode descobrir que não era aquilo.
Pode precisar começar novamente.
Uma confiança mais madura talvez não diga:
“Eu tenho certeza de que vai dar tudo certo.”
Talvez diga:
“Eu não tenho certeza do que vai acontecer, mas acredito que posso lidar com isso.”
E isso muda a relação com o futuro.
Porque você não precisa controlar completamente o resultado para se permitir participar da experiência.
E se você parasse de esperar virar outra pessoa?
Talvez exista alguma coisa na sua vida que você esteja adiando porque acredita que precisa primeiro se tornar mais confiante.
Mais corajoso.
Mais preparado.
Mais interessante.
Mais seguro.
Só que talvez a pessoa que você espera se tornar esteja justamente do outro lado das experiências que você ainda não se permitiu viver.
Você não precisa acordar amanhã como Rocky Balboa.
Aliás, provavelmente seria bastante inconveniente começar a andar pela rua procurando uma escadaria para subir ao som de uma música épica.
O que você pode fazer é bem mais simples.
Dar um pequeno passo.
Depois outro.
E observar o que acontece.
Porque talvez a confiança não seja uma personalidade que você precisa comprar, instalar e ativar.
Talvez seja uma relação que você constrói consigo mesmo.
Toda vez que tenta.
Toda vez que aprende.
Toda vez que se posiciona.
Toda vez que cai e percebe que consegue levantar.
Toda vez que descobre:
“Eu não sabia se conseguiria. Mas fui.”
E talvez, no fim das contas, essa seja a grande lição escondida naquela história do boxeador.
Não é sobre nunca ter medo.
Não é sobre acreditar que você é invencível.
É sobre descobrir que você não precisa ser invencível para continuar.
Talvez confiança não seja olhar para a vida e pensar “eu vou ganhar”.
Talvez seja olhar para ela e dizer:
“Vamos ver até onde eu consigo chegar.”
E começar.
Quer continuar essa conversa?
Se você gosta de olhar para filmes, personagens e histórias e descobrir o que eles podem revelar sobre a nossa própria mente, continue explorando a Mente Maktub.
Porque às vezes a gente entra numa história para entender um personagem…
e acaba encontrando um pedaço da gente lá dentro.
E talvez seja exatamente aí que começa o autoconhecimento.
