/

Por Que É Difícil Decidir? Paradoxo da Escolha

Você abre o streaming para escolher um filme.

Trinta minutos depois, continua olhando para a tela inicial.

Você percorre as categorias.

“Talvez esse.”

Não.

“Esse parece bom.”

Também não.

“Vou procurar só mais um.”

E, quando percebe, passou mais tempo escolhendo o filme do que teria levado para assistir metade dele.

A cena se repete em outros lugares.

Você abre o cardápio de um restaurante com vinte opções e acaba pedindo exatamente o mesmo prato de sempre.

Tem uma tarde livre e, pela primeira vez em semanas, ninguém está exigindo nada de você.

Você pode ler.

Assistir a uma série.

Sair.

Dormir.

Desenhar.

Jogar.

Não fazer absolutamente nada.

E então acontece o mais estranho:

você não consegue escolher.

Isso pode parecer preguiça, falta de personalidade ou simplesmente indecisão.

Mas existe uma explicação psicológica interessante para esse fenômeno: às vezes, ter muitas possibilidades não aumenta nossa sensação de liberdade. Pode aumentar justamente a dificuldade de escolher. Esse é o Paradoxo da Escolha.

E talvez o mais curioso seja que o problema não esteja apenas em ter opções demais.

Pode estar naquilo que imaginamos que uma escolha deveria nos proporcionar.


Quando liberdade demais começa a pesar

A ideia de que mais opções são sempre melhores parece bastante lógica.

Se eu posso escolher entre três filmes, tenho mais liberdade do que se só existe um.

Se um restaurante oferece vinte pratos, teoricamente tenho mais chances de encontrar exatamente aquilo que quero.

Se tenho várias possibilidades profissionais, amorosas ou pessoais, posso escolher a vida que combina comigo.

Até aqui, tudo parece maravilhoso.

O problema aparece quando precisamos comparar todas essas possibilidades.

É aí que entra o psicólogo Barry Schwartz, conhecido por popularizar a ideia do Paradoxo da Escolha.

Em seu trabalho, Schwartz questionou justamente essa associação automática entre mais opções e mais liberdade. Sua proposta é que, em determinadas condições, uma quantidade muito grande de alternativas pode aumentar a paralisia, a insatisfação e o arrependimento.

Mas existe uma nuance importante.

Não significa que “quanto mais opções, pior”.

A pesquisa sobre choice overload, ou sobrecarga de escolha, mostra que a quantidade de alternativas não é o único fator envolvido. Complexidade da escolha, dificuldade da tarefa, incerteza sobre nossas próprias preferências e até o objetivo que temos ao escolher podem mudar completamente o efeito.

Ou seja:

vinte opções podem ser ótimas quando você sabe exatamente o que quer.

Mas podem ser um pesadelo quando você não sabe.

E é aqui que Chidi Anagonye entra na história.


Chidi Anagonye: o homem que pensa até a escolha virar um problema

Se você conhece The Good Place, provavelmente sabe quem é Chidi.

Se não conhece, imagine um professor de filosofia moral que parece ter sido construído dentro de um laboratório especializado em pensar demais.

Chidi quer fazer a coisa certa.

Sempre.

Ele analisa as consequências.

Considera os princípios envolvidos.

Pensa no impacto sobre outras pessoas.

Examina os argumentos.

Considera o argumento contrário.

Depois considera uma terceira possibilidade.

E então volta para a primeira.

É praticamente um navegador com 47 abas abertas — só que todas estão tocando filosofia moral ao mesmo tempo.

A série transforma essa característica em humor, mas o comportamento de Chidi toca em uma questão muito humana: o que acontece quando a vontade de tomar a decisão correta começa a impedir qualquer decisão?

Em um episódio, Michael lembra que Chidi já teve uma crise diante de um balcão de sorvetes porque havia opções demais. Ele precisava escolher entre diferentes combinações e, antes mesmo de chegar ao sorvete, já estava preso na quantidade de possibilidades.

É engraçado porque é absurdo.

Mas também é familiar.

Talvez não no nível Chidi.

Você provavelmente não entra em crise existencial diante de um pote de sorvete.

Mas talvez passe quarenta minutos escolhendo uma série.

Ou adie uma viagem porque existem destinos demais.

Ou demore meses para escolher um curso.

Ou fique comparando celulares, apartamentos, empregos ou restaurantes até perder completamente a vontade de escolher qualquer um deles.

E existe uma razão para isso.

Chidi Anagonye

O problema não é apenas escolher. É perder as outras possibilidades

Imagine que você precisa escolher entre duas sobremesas.

Você escolhe o bolo de chocolate.

Pronto.

Mas, no momento em que escolheu o bolo, você também abriu mão do cheesecake.

Se havia apenas essas duas opções, talvez isso não seja grande coisa.

Agora imagine um cardápio com cinquenta sobremesas.

Você escolhe uma.

Mas sabe que existem outras quarenta e nove que você não experimentou.

De repente, a escolha deixa de ser apenas:

“O que eu quero?”

Ela vira:

“Será que existe algo melhor entre todas essas opções que estou deixando para trás?”

É aí que aparece um dos elementos mais interessantes do paradoxo da escolha: o arrependimento antecipado.

Você ainda nem escolheu, mas já está imaginando como poderá se sentir depois.

“E se eu escolher esse emprego e descobrir que o outro era melhor?”

“E se eu terminar esse relacionamento e me arrepender?”

“E se eu comprar isso e encontrar algo melhor amanhã?”

“E se eu assistir a esse filme e desperdiçar duas horas da minha vida?”

Perceba a mudança.

Você não está mais escolhendo apenas entre alternativas.

Está tentando prever o futuro.

E ninguém recebeu esse superpoder.


A escolha perfeita é uma armadilha

Talvez por isso algumas decisões simples se tornem tão cansativas.

A pergunta parece ser:

“Qual opção é melhor?”

Mas escondida dentro dela existe outra:

“Como posso ter certeza de que não vou me arrepender?”

E essa pergunta é praticamente impossível de responder.

Porque uma decisão não acontece em um universo controlado.

Você pode escolher o emprego perfeito e o chefe mudar.

Pode escolher a viagem maravilhosa e chover durante cinco dias.

Pode escolher o restaurante mais recomendado da cidade e descobrir que não gostou da comida.

Pode escolher o filme mais bem avaliado da história do cinema e dormir no meio.

Escolher envolve incerteza.

E talvez uma parte da nossa dificuldade esteja justamente na tentativa de eliminar essa incerteza antes de agir.

Só que ela não pode ser eliminada.

Você não precisa ter certeza para escolher.

Você precisa escolher sabendo que não tem certeza.


Chidi Anagoyne

E onde entra a chamada “fadiga de decisão”?

Aqui existe outra ideia bastante popular: a fadiga de decisão.

Ela descreve a possibilidade de que decisões repetidas ou muito exigentes possam prejudicar nossa capacidade de continuar tomando decisões com qualidade. O conceito foi relacionado historicamente às pesquisas sobre autocontrole e “ego depletion”, associadas a pesquisadores como Roy Baumeister.

A explicação popular costuma ser mais ou menos assim:

Você acorda.

Escolhe a roupa.

Decide o café.

Responde mensagens.

Escolhe o caminho para o trabalho.

Decide o que fazer primeiro.

Participa de reuniões.

Resolve problemas.

Escolhe o almoço.

Responde mais mensagens.

Escolhe o que vai deixar para amanhã.

E, no fim do dia, chega diante de uma decisão importante completamente esgotado.

A ideia é intuitiva.

Mas a ciência ficou mais complicada.

Pesquisas posteriores colocaram em dúvida uma versão simples da teoria segundo a qual o autocontrole funcionaria como um tanque limitado que simplesmente vai esvaziando ao longo do dia. Revisões mais recentes apontam que fatores motivacionais, atenção, contexto e características da própria tarefa também precisam ser considerados.

Portanto, talvez seja melhor não imaginar o cérebro como um celular com uma barrinha de bateria chamada “decisões restantes”.

Seria ótimo.

“Desculpe, não posso escolher o jantar. Minha bateria decisória está em 3%.”

Infelizmente, não funciona tão bonitinho.

O que podemos dizer com mais segurança é que decisões repetidas, complexas ou exigentes podem aumentar a carga mental e afetar nosso desempenho, especialmente quando estamos cansados, inseguros ou diante de tarefas difíceis.

E isso já ajuda bastante a entender aquela sensação de:

“Eu simplesmente não aguento mais escolher.”


Talvez você não seja indeciso. Talvez esteja tentando garantir que não vai errar

E aqui chegamos à parte mais interessante.

Porque nem toda indecisão nasce de excesso de opções.

Às vezes, existem poucas opções.

Mas o peso colocado sobre a escolha é enorme.

Você transforma uma decisão em uma espécie de julgamento sobre quem você é.

Se escolher o curso errado, pensa:

“Talvez eu não saiba o que estou fazendo da minha vida.”

Se escolher o relacionamento errado:

“Talvez eu tenha péssimo julgamento.”

Se escolher o emprego errado:

“Talvez eu tenha estragado minha carreira.”

A decisão deixa de ser apenas uma decisão.

Ela vira uma prova.

E ninguém gosta de fazer uma prova quando acredita que uma única resposta errada pode definir sua vida inteira.

É possível olhar para Chidi justamente por esse ângulo.

A graça do personagem está no exagero, mas existe uma pergunta interessante por trás dele:

o que aconteceria se você não precisasse encontrar a escolha perfeita?

E se bastasse fazer uma escolha suficientemente boa?


The Good Place

“Suficientemente boa” pode ser melhor do que “perfeita”

Existe uma diferença enorme entre querer tomar uma boa decisão e exigir de si a decisão perfeita.

Uma boa decisão considera as informações disponíveis, seus valores, suas necessidades e as circunstâncias daquele momento.

Uma decisão perfeita exigiria algo impossível:

conhecer todas as consequências antes que elas acontecessem.

Por isso, uma maneira mais saudável de pensar sobre algumas escolhas é perguntar:

“Essa decisão precisa ser perfeita ou precisa apenas ser boa o bastante para agora?”

Essa pequena mudança tira a escolha do território da eternidade.

Você não está decidindo toda a sua vida.

Está decidindo o próximo passo.

E existe outra pergunta ainda mais útil:

“Se eu escolher isso e não funcionar, consigo mudar de direção?”

Essa pergunta ajuda a separar decisões reversíveis de decisões realmente difíceis de desfazer.

Escolher um filme é extremamente reversível.

Você pode simplesmente desligar.

Escolher um restaurante também.

Uma mudança profissional pode exigir muito mais reflexão.

Uma decisão relacionada a um relacionamento pode ter consequências mais profundas.

Nem toda escolha merece o mesmo nível de análise.

Esse talvez seja um dos maiores problemas de quem pensa demais:

tratar todas as decisões como se tivessem o mesmo peso.


O que o medo de errar está tentando proteger?

Existe ainda uma pergunta mais profunda.

Quando você não consegue decidir, talvez valha perguntar:

“Do que eu estou tentando me proteger ao não escolher?”

Pode ser do arrependimento.

Da crítica.

Da sensação de fracasso.

Da responsabilidade.

Da possibilidade de descobrir que aquilo que você queria não era exatamente aquilo que imaginava.

Ou simplesmente da sensação desconfortável de não saber o que acontecerá depois.

Não existe uma única resposta psicológica para toda indecisão.

E é importante não transformar isso em diagnóstico.

Mas observar o próprio comportamento pode revelar padrões.

Talvez você perceba que trava mais quando a decisão envolve dinheiro.

Ou relacionamento.

Ou trabalho.

Ou quando outras pessoas podem julgar sua escolha.

Ou talvez descubra algo ainda mais simples:

você consegue decidir rapidamente quando aceita que qualquer escolha pode ter algum defeito.

E trava completamente quando acredita que precisa acertar.

Essa diferença diz bastante coisa.


Você não precisa escolher a melhor vida possível

Vivemos cercados de escolhas.

Filmes.

Restaurantes.

Cursos.

Carreiras.

Relacionamentos.

Produtos.

Viagens.

Cidades.

Estilos de vida.

Até a ideia de descanso virou uma escolha entre dezenas de possibilidades.

E existe uma ironia nisso tudo:

podemos ter mais liberdade para escolher do que muitas gerações anteriores e, ainda assim, sentir uma enorme dificuldade para escolher.

Não porque liberdade seja ruim.

Mas porque liberdade também traz responsabilidade.

Quando existem poucas alternativas, é fácil colocar a culpa nas circunstâncias.

Quando existem cinquenta caminhos, podemos começar a imaginar que deveríamos ter escolhido o caminho perfeito.

Barry Schwartz chama atenção justamente para esse lado da abundância: quanto mais possibilidades temos, maior pode ser a expectativa de que encontraremos a opção ideal. E, quando ela não existe, a própria liberdade pode se transformar em fonte de insatisfação.

Talvez o objetivo, então, não seja eliminar todas as escolhas.

Sejamos honestos: seria meio difícil viver assim.

Talvez seja aprender a não exigir que cada escolha seja definitiva.

Você pode escolher.

Viver a experiência.

Observar o resultado.

E, quando necessário, escolher novamente.


chidi the good place 0

E se decidir fosse menos sobre ter certeza e mais sobre seguir em frente?

Talvez aquela pessoa que passou trinta minutos escolhendo um filme não esteja simplesmente sendo indecisa.

Talvez esteja tentando garantir que aquelas duas horas sejam perfeitas.

Talvez a pessoa que não sabe o que fazer com uma tarde livre esteja acostumada a transformar até o descanso em uma decisão que precisa ser bem aproveitada.

Talvez quem demora meses para escolher entre duas possibilidades esteja esperando uma certeza que só poderia existir depois da escolha.

E talvez seja esse o detalhe que mais nos escapa:

algumas respostas só aparecem depois que a gente começa a caminhar.

Chidi passa boa parte de The Good Place tentando descobrir qual é a decisão absolutamente correta. A série transforma isso em comédia, mas a questão por trás da piada é bastante humana: em algum momento, pensar sobre a escolha precisa dar lugar ao ato de escolher.

Porque ficar parado também produz consequências.

Não escolher não significa escapar da responsabilidade.

Às vezes, significa simplesmente deixar que o acaso, o tempo ou outras pessoas escolham por você.

Então, da próxima vez que você perceber que está travado diante de uma decisão, experimente trocar a pergunta:

Em vez de:

“Qual é a escolha perfeita?”

pergunte:

“Qual escolha faz sentido para mim com as informações que tenho agora?”

E depois:

“Se eu descobrir que não funciona, posso mudar de direção?”

Talvez isso não elimine a dúvida.

Mas talvez você não precise eliminar a dúvida.

Talvez precise apenas parar de esperar que ela desapareça antes de começar.

Porque não errar é diferente de acertar.

E uma vida inteira tentando não escolher errado pode acabar sendo uma vida em que outras pessoas, circunstâncias e possibilidades escolheram por você.

A decisão perfeita provavelmente não existe.

Mas a decisão que você toma existe.

E, gostando ou não, é ela que coloca a história em movimento.


Quer aprofundar ainda mais?

Se você percebe que passa tempo demais analisando possibilidades, comparando cenários ou tentando prever todas as consequências antes de agir, talvez valha observar uma coisa:

você está buscando informação ou buscando certeza?

As duas coisas parecem iguais.

Mas não são.

Informação ajuda a decidir.

Certeza absoluta pode se transformar em uma espera infinita.

E talvez o autoconhecimento comece justamente quando você percebe a diferença.

Perguntas para levar com você

  • Qual decisão estou adiando neste momento?
  • Estou realmente sem informação ou estou com medo de escolher?
  • Essa decisão é reversível?
  • Estou procurando uma boa escolha ou a escolha perfeita?
  • O que eu imagino que aconteceria se eu escolhesse errado?
  • O que acontece comigo quando aceito que toda escolha envolve alguma incerteza?

Talvez você descubra que o problema nunca foi simplesmente não saber escolher.

Talvez você só tenha aprendido a acreditar que precisava ter certeza antes de começar.

E isso muda bastante a história.

Agora me conta: qual é a escolha que você está adiando?

Se você quiser entender mais sobre como a sua mente cria essas armadilhas invisíveis, escrevi um ebook sobre exatamente isso: Maktub — O Código Oculto da Sua Mente. O link está aqui: https://hotm.io/Mahktub

Lilian Almeida
Lilian Almeida

Lilian Almeida é apaixonada pelo comportamento humano e pela criatividade. Formada em Psicanálise, artista, artesã, desenhista e escritora por vocação, une psicologia, neurociência, filosofia e cultura em conteúdos que despertam reflexão e autoconhecimento.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *